quarta-feira, 15 de maio de 2013

Delegado do MDA/AM relata viagem ao Alto Juruá

 
 
Passamos quatro dias pela região do Território da Cidadania do Alto Juruá, como o acesso se dá de maneira mais fácil através do Estado do Acre, tivemos a oportu...nidade de conhecer um pouco desta região. Procuramos pensar a região a partir da noção de território, como é entendido pelo Governo Federal. Por essa noção, a região por onde passamos corresponde a dois territórios da cidadania: o Território Juruá – Acre e o Território do Alto Juruá – Amazonas.
Dados do Programa Federal Territórios da Cidadania nos dão um pouco de noção do que vem a ser a região:  “O Território Alto Juruá - AM - abrange uma área de 51.941,50 Km² e é composto por 4 municípios: Eirunepé, Envira, Guajará e Ipixuna.
Veja relato completo...

 A população total do território é de 83.267 habitantes, dos quais 33.627 vivem na área rural, o que corresponde a 40,38% do total. Possui 4.485 agricultores familiares, 521 famílias assentadas e 4 terras indígenas. Seu IDH médio é 0,52.”
“O Território Vale Do Juruá – AC - abrange uma área de 29.686,20 Km² e é composto por 5 municípios: Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter e Rodrigues Alves.
A população total do território é de 131.396 habitantes, dos quais 55.742 vivem na área rural, o que corresponde a 42,42% do total. Possui 5.922 agricultores familiares, 6.505 famílias assentadas e 11 terras indígenas. Seu IDH médio é 0,64.”
As belezas naturais da região são enormes, a configuração do leito do Rio Juruá que transmuta a todo o momento dá uma beleza sem igual para aquele imenso vale.
Mas quero mesmo discorrer sobre algo que chamou a atenção na região, que é a forma como as pessoas se relacionam com o meio onde vivem. Muitos de nós temos uma ‘visão do de fora’. Geralmente vamos com uma ideia do que vem ser esta relação, mas quando se sobrevoa as duas regiões, os dois territórios, passamos a perceber nitidamente diferenças gritantes que uma mesma região pode apresentar.
Uma dessas diferenças talvez persista na origem daqueles que se estabeleceram na região e na visão que estes tenham da relação com o meio onde produzem e reproduzem seus modos de vida.
Na região que compreende a parte amazonense do Vale do Juruá, inexiste ligações rodoviárias, exceto entre Cruzeiro do Sul - AC e Guajará-AM, com uma estrada asfaltada de cerca de 20 Km. No mais, as ligações e relações, ou se dão via aérea, ou fluvial.
A aérea é precária, cara e inviável do ponto de vista comercial. Resta a fluvial, ocorre que o Juruá é considerado o Rio mais sinuoso do mundo. Suas curvas são infindáveis, transformando uma distância que em linha reta hipoteticamente seria de 50 Km, em 200 em alguns casos.
Mas o que percebemos nitidamente é a forma como esses elementos se portam diante do meio natural. Na região acriana, existe uma rodovia de cerca de 600 Km ligando a Cidade de Cruzeiro do Sul à capital do Estado, Rio Branco. Ao longo desta estrada há infinitos assentamentos rurais e empreendimentos do agronegócio.
Tanto esses assentamentos, como os negócios são oriundos de uma visão empreendedora, nos marcos do empreendimento capitalista, de terra como meio de produção de riquezas, como propriedade produtiva, acumulativas para o crescimento econômico daqueles que nela vivem e produzem.
Isso por si só faz um diferencial enorme do ponto de vista econômico, a pujança econômica da região de Cruzeiro do Sul, criando uma enorme pressão sobre a floresta em pé. Nas proximidades da rodovia e de suas vicinais praticamente não há mais floresta em pé, criando impactos fortíssimos do ponto de vista sócio – ambiental – econômico. Estes foram os motivos que sustentaram as lutas dos seringueiros acrianos liderados por Chico Mendes. Ele promoveu na década de 80 e 90 os ‘EMPATES’, manifestações populares dos seringueiro que visava impedir a derrubada da floresta, e consequentemente das seringueiras para se plantar capim.
Esses elementos nos fazem refletir o porquê de nas fotos observadas, os caboclos ribeirinhos não terem praticamente derrubado quase nada da floresta, em contrapartida dos colonos das beiras de estradas.
Um elemento importante para compreender isso é a necessidade. Os ribeirinho estão posicionados estrategicamente próximo à uma praia do Rio, um lago (sacado, como é chamado por aqui). Esses dois elementos facilitam a obtenção dos alimentos habitualmente consumidos por esses ribeirinho.
A floresta em pé lhes propicia a coleta do Açaí, Abacaba, Buriti, Patauá, Sova, e mais uma infinidade de frutos silvestres de alto valor calórico. A floresta em pé também facilita a captura de animais silvestre de forma mais facilitada, e a existência das praias do Rio propicia a captura de quelônios como Tartaruga, Tracajá, Cabeçudo e Iaçá, além dos ovos desses animais que é muito apreciado na região, que embora protegidos por lei da exploração comercial, é permitido seu consumo por populações tradicionais. A existência dos lagos facilita a fartura na pesca.
Por fim, a visão que os ribeirinhos têm sobre a vida, e seus modos de vida, devem ser levados em consideração ao pensarmos um modelo de desenvolvimento para a região, que prime por parâmetros diferenciados de aferição desse desenvolvimento.

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