domingo, 26 de agosto de 2012

Aos 43 anos, Ceagesp busca um novo modelo de abastecimento (Folha.com)

(Folha.com)
AGNALDO BRITO
DE SÃO PAULO
 
A Ceagesp, maior entreposto de legumes, frutas e hortaliças da América Latina, está buscando um novo modelo de negócio capaz de manter ativa uma operação logística e comercial que dia a dia tem ficado mais difícil. Criada em 1969 e há 13 anos sob o comando do governo federal, a empresa acumula prejuízos ano após ano. Apesar de o complexo movimentar mais de R$ 5 bilhões na comercialização de alimentos por ano, a Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo) fatura apenas R$ 28 milhões. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, responsável pelo complexo de 700 mil metros quadrados localizado numa das esquinas mais movimentadas do Brasil (nas marginais Tietê e Pinheiros, em São Paulo), pediu à direção da Ceagesp um novo modelo para o complexo. O plano terá de apresentar uma proposta que faça o entreposto obter receita e assim recuperar a capacidade de investir. Não é uma meta nova.

Com 43 anos, a Ceagesp tem uma estrutura precária, obsoleta para o tipo de operação que o megamercado de hortifrúti demanda. Não parece ser um desafio fácil. Quando completou 40 anos, em 2009, a então direção do complexo estava envolvida na mesma discussão.
Antiga quanto a própria concepção "urbanística" da 'cidade Ceagesp' -por onde circulam diariamente 50 mil pessoas e até 18 mil caminhões-, a mudança cultural ali é difícil.
Recentemente, a Ceagesp tentou implantar um sistema de cobrança para o ingresso de caminhões no interior do complexo. Uma mobilização de caminhoneiros fez a direção recuar. A proposta, segundo o presidente da Central, Mário Maurici, era cobrar R$ 60 por caminhão que ingressasse no complexo.
A direção teve de recuar, mas disse que não desistiu da cobrança. A empresa acha que essa é uma fonte de receita e uma forma de organizar o caos de caminhões no interior do entreposto.
"Eles pagam até R$ 180 para estacionar o caminhão no entorno da Ceagesp. O valor de R$ 60 estava até barato", disse Maurici. Um dos maiores problemas do entreposto é espaço. Mais de 3.000 permissionários comercializam mais de 2.000 produtos no espaço.
Quando foi projetada, a Ceagesp recebia pequenos caminhões. Hoje, a estrutura recebe carretas aos milhares. Nos dias de maior movimento, principalmente às segundas-feiras e às sextas-feiras, alguns caminhões levam mais de duas horas para conseguir entrar no complexo. Muitas carretas entram e não conseguem sair.
"Temos um centro de distribuição a menos de 800 metros daqui. Não são raros os dias em que um caminhão leva mais de duas horas para chegar aqui", diz Julio Cesar Zanardi, gerente da Benassi, o maior comercializador de frutas do entreposto.
A MUDANÇA
Uma proposta antiga sempre ronda a Ceagesp: a transferência do entreposto para fora da cidade, próximo ou no Rodoanel. Sugestão antiga e, por ora, engavetada. Não há local ou recursos para transferir a estrutura para o entorno da capital. Estimam-se em mais de R$ 4 bilhões o montante necessário para essa operação.
"Acho que a Ceagesp já deveria ter saído daqui há muito tempo. Todos os entrepostos de abastecimento ficam em rodovias, apenas esse fica dentro da cidade", diz José Luiz Batista, maior comercializador de legumes e de tomate de São Paulo.
A direção diz que esse é um anseio dos grandes atacadistas, mas não dos médios, menos ainda dos pequenos. "Simplesmente não existe consenso em relação a isso. Mas uma proposta que estamos avaliando é verticalizar a Ceagesp", diz o presidente.
Com 250 mil metros quadrados de área coberta, a ideia -por enquanto, apenas uma ideia- é construir estruturas verticais e aumentar o espaço coberto para 400 mil metros quadrados. Quando e como isso será feito é uma incógnita.
A despeito do desafio de movimentar 11 mil toneladas de alimentos por dia, a Ceagesp segue cumprindo duas missões para as quais foi criada: 1) abastecer a maior cidade do país e boa parte dos outros Estados; e 2) garantir um ambiente público para a formação de preços, missão essencial para o controle de valores e da inflação.
Sem uma política nacional que organize a produção e a logística, pelo menos há um espaço para a formação de preços. O que se imagina é que uma estrutura mais moderna também resultaria em preços menores e qualidade superior aos atuais.

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